sábado, 11 de julho de 2015

A obrigação de ser feliz.

Em alguns momentos da minha vida profissional fui questionada sobre a necessidade de se falar para as crianças sobre a morte. E percebi que, para algumas pessoas, é difícil falar do assunto porque acreditam que a morte seja um tipo de fracasso. Como se tivéssemos a "missão" de triunfar sobre ela, e a obrigação de ser feliz. Como falar do que acreditamos ser um fracasso, num contexto cultural que só aceita o sucesso? E mais, que diz o que é o sucesso. Assim, arbitrariamente. O melhor carro, o melhor corpo, a saúde.
Ao longo da trajetória profissional, aprendi a não ter muitas certezas. Desaprendi a generalizar, e achar que a saída para determinado problema é uma. Ao ouvir tantas pessoas falarem de suas dores, aprendi que uma boa parte do remédio para elas é inventado. Ou melhor, é um tipo de reinvenção.
Voltemos às crianças. Então, para aprender (e ensinar) a lidar com a  morte, é preciso aprender a lidar com a perda. "Mas não é um assunto pesado demais para crianças?"
Não, na medida que entendemos que ela pode ser vivenciada em pequenas ações, gestos e palavras simples do dia a dia. Num primeiro momento, evitamos falar ou vivenciar situações de frustração com as crianças. Um recém nascido, por exemplo, não tem condições emocionais e cognitivas de elaborar uma situação de frustração como bebês um pouco maiores. Ainda estão no registro da necessidade e desde o primeiro dia, apenas experimentando o desejo. O que é isso? Ele precisa de pele, de preferência a da mãe, mas na falta dela, a de alguém. Ele precisa de alimento no estômago, de preferência o leite materno, mas na falta dele, um leite. O que desperta o alimento afetivo é o alimento orgânico, daí uma importância a mais de responder ao chamado para saciar a fome.
Não há um marco oficial nem genérico, mas ao longo do primeiro ano, o bebê aprende a reconhecer seus cuidadores e experimenta o desejo através da falta que começa a sentir deles.
Não se iluda, se você é um cuidador, a frustração vai acontecer, você querendo ou não. E, acredite, ela é vital.
Por que então a sociedade não aceita a importância da frustração, e a evita, de todas as formas possíveis? Por que então a cada vez que nos deparamos com nossos limites, somos levados a crer que eles não deveriam estar ali? Por que então que interpretamos as barreiras que se colocam no nosso caminho como impedimentos e não como desvios de percurso? Uma criança que aprende a andar o faz amparada justamente pelo que está em torno dela, e dificultariam seu aprendizado se lá não estivessem.
Por que motivo então, de diversas, e digo, bem diversas formas, as nossas crianças são levadas a crer que devem ser os melhores? Os melhores alunos, com as melhores notas, os melhores smartphones...
Na prática, os adultos estão preparando as crianças para lidarem com o sucesso, mas não cogitam a possibilidade de fracasso, como se não pudesse ocorrer, e com eles não pudessem aprender nada. Dizem como e quando serão felizes.
A beleza da vida, essa que experimentamos em nosso corpo, está justamente nos caminhos que percorremos, nas cicatrizes que carregamos, na história que construímos, que, querendo ou não, inclui as nossas dores.
Porque é através delas que crescemos e que podemos aprender, desde que o fracasso seja interpretado como o resultado possível de uma dada experiência, o que pode ser regenerador, se este resto for encarado como "adubo", justamente o que faz a vida renascer.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sobre a maternidade.

Muito se passou desde a última postagem por aqui. Aos 40 anos, engravidei e hoje sou mãe de uma linda menina, que tem sido minha fonte de alegria desde então, ela e o pai dela, minha família, com a qual divido dores e amores.
Esperei o tempo certo para voltar a escrever, que, como tudo o que há de mais sublime na vida, precisa ser natural.
Desde que sou mãe, minha leitura do mundo mudou. Vejo bebês, crianças, adultos e sobretudo os idosos por uma outra lente. Idosos têm uma atração muito intensa por bebês. Deve ser por guardarem a inocência que é o que, afinal, nos resta depois que não somos mais tão interessantes aos olhos da Humanidade.
Demorei pra aprender a ter paciência. Mas aprendi. Eles têm outro tempo, outro ir e vir. Dia desses, na fila do banco, uma senhora ficou ensinando a Clara a dar a língua. Um outro senhor, deu um molho de umas dez chaves pra ela brincar. Respirei, continuei conversando, mas deixei que ela interagisse com eles, sob o meu olhar. Não interferi. Eu não dou a língua e Clara já sabe que não brinca com as chaves.
Tudo bem, passados alguns minutos ela já tinha esquecido. O mundo esta aí, eu tenho minhas crenças do que é bom pra ela, mas ela tem direito de dar tchau e mandar beijo pra quem quiser, até pro mendigo da rua, ou o motoqueiro parado no sinal. Isso, é dela.
Mas porque mesmo eu comecei a falar da experiência de ser mãe?
Porque depois disso, a minha leitura da prática clínica também é outra.
Hoje estou também do lado de quem acorda no meio da noite pra ver se a filha está coberta. De quem procura se tranquilizar em meio a uma febre inesperada. De quem tem aflições e medos normais de mãe, que antes, só conhecia de ouvir dizer.
Eu poderia escrever muitas coisas, sobre a experiência da gravidez, da amamentação, das noites sem dormir, do chorinho que não passa, do retorno ao trabalho com a cabeça em casa, do desmame.
Mas foi como uma viagem transcendental, muito visceral e pouco definível. As dores, o cansaço, a simbiose bem própria deste início de vida foi tão forte, que as palavras vieram depois. E sobre o depois.
Hoje, ela fala. Ela pede, ela quer. Ela prefere suco do que água, ou vice-versa. Ela sabe que não pode, porque mamãe e papai já deixaram bem claro, mas ela vai lá e faz. Olhando pra nós, com aquele olhar de "E aí? Não vai falar nada?"
Hoje ela frequenta a creche. E posso dizer, após vinte dias, que está adaptada.
Toda a vivência da maternidade é redefinida após a adaptação na creche. É, de fato, o espaço dela, e eu confesso que, no início, não sabia muito bem onde começava e onde terminava o meu. Vários pais, avós e babás ansiosos como eu, em meio a inúmeras crianças chorando. Foi quando alguém falou..."se eu tivesse visitado a creche na primeira semana de aula, jamais teria matriculado meu filho!!" E gargalhamos...
Todos começaram a se conhecer e trocar impressões. Logo, logo ficamos sabemos das histórias de algumas crianças. Acho que, por defesa, o ser humano tende a observar a história do outro e buscar o que está "errado".
Muitas crianças choravam, mas nenhuma mais do que uma, em especial. Essa, chorava sempre, todos os dias. "Mas onde está sua mãe? " "Ela é filha de estrangeiros, eles vieram ao Brasil pra trabalhar e não podem estar aqui. Ela ficava ano passado com a avó, mas essa foi embora pro país dela. Parece que a babá também vai embora. Coitada da menina..." Rapidamente criamos uns fantasmas dos pais horrorosos, com cara de monstros peludos, que ela tem. No dia seguinte àquele, lá estava a mãe da menina, com a cara mais simpática possível, educadíssima. Estou longe de saber sobre a história daquela família, mas fiquei interessada mesmo na lição aprendida. Minha sensação foi de que criamos monstros na nossa cabeça, aumentamos a carga das experiências vividas, por defesa, por medo, ou por apego. Precisamos nos sentir melhores do que os outros, talvez.
Eu não sei explicar muito bem como, mas depois de uns vinte dias, tudo mudou. Fui à escola rapidamente ao meio-dia e percebi um silêncio. As crianças estavam dormindo. Acho que quase todas. Não duvido de que a partir de agora, o som mais ouvido seja mesmo das risadas. Começam a ter rotina, a fazer roda de cantoria e pintura.
Clara está adorando. E eu posso respirar, sem culpa, que também estou, após a minha primeira manhã sozinha em um ano e um mês. Ainda mais sabendo que seria recebida por ela com um sorriso e um abraço muito apertado. Um abraço que, a meu ver, tem um quê de "obrigada, mãe, por me dar espaço".
Minha filha, sempre dei. Se fosse pra viver tudo o que meu imenso amor pede, iria te sufocar. Com certeza você não teria experimentado ficar de pé com oito meses, nem andado, de fato, com dez.
Hoje, que você já anda e corre até, faço meu esforço pra abrir espaço na nossa rotina para as suas palavras, que já chegaram. Por isso, não te atropelarei. Faça como achar melhor, minha querida, no seu tempo.
Te amo, filha.
A fofa já me sapeca um beijo quando digo isso. Já sabe o que é o amor.