terça-feira, 30 de abril de 2019

Não foi por falta de aviso.



Quantas vezes já ouvimos isso na infância? Expressão corriqueira de uns vinte anos atrás, ou mais, que caiu em desuso. Há alguns dias me deparei com uma frase de Pablo Neruda: “Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das conseqüências”. A frase me fez retomar esse assunto, que vai e volta muitas vezes nos meus pensamentos, na tentativa de compreender onde foi que as pessoas começaram a buscar somente a liberdade, ou o próprio bem estar, ao invés do aprendizado.
Aprender talvez seja a maior prova da nossa vitalidade, mas envolve tanto a assimilação quanto a experiência. E uma vez que temos a sorte de não ter o controle das nossas experiências de vida, nos frustramos. Fato. E assim como o aprendizado é a nossa maior conexão com a própria vida, não é possível passar por ela sem a frustração.
Ilustrando o que acabei de dizer, podemos imaginar um choro doído de uma criança, gritado ou mesmo sentido em silêncio, que não se quer ouvir porque ouvir o choro incomoda. Ou mesmo um questionamento que surge para furar as certezas, as leituras de mundo construídas anos a fio, mas que não podem ser tomadas como rochedos intactos, imutáveis, que irão permanecer iguais ao longo de toda uma existência, porque não vão.
Toda vez que uma criança pede algo, ela está experimentando seu lugar de demandante no mundo, não necessariamente para ser atendida. Toda vez que uma criança acredita que ela precisa de algo mas os pais sabem que ela não precisa, e ainda assim cedem e lhe dão, é uma oportunidade perdida de aprendizado. Talvez não saibam que o aprendizado pode ocorrer com afeto, e que afeto é mais do que carícia. A carícia, o afago, o colo, são uma parte do amplo dispositivo de cuidado afetivo que os pais potencialmente têm. O afeto também existe numa orientação, numa fala mais firme, num posicionamento que não desencoraja, não traumatiza, pois estimula o crescimento emocional, não sendo ofensivo nem arrogante.
Quando vejo gerações de jovens que desaprenderam a olhar, abraçar, ouvir o outro, a se importar com a dor que não é dele, me pergunto aonde seus pais estão errando. Aonde estão falhando em ensinar a compaixão, que até está presente no discurso, mas não nas ações do dia-a-dia? E porque estão se tornando indivíduos cada vez mais isolados, presos em seus estereótipos de imagem social, mas que muitas vezes não são condizentes com o que realmente sentem, ou são? O distanciamento entre pais e filhos não é fruto de um fato, mas de um conjunto de atitudes que vão acontecendo ao longo de anos. Os pais precisam parar de perguntar diariamente "como o filho foi na escola", para perguntar como ele está se sentindo naquele dia, porque o fato de um assunto não ser abordado não o faz desaparecer, e o que não encontra expressão, pode ser vivenciado como angústia, sofrimento, dor. Porque para dores físicas temos sempre um analgésico, e para dores da alma não temos um abraço?
Cresci lendo uma frase no diário escolar, ao longo de vários anos: “Liberdade com responsabilidade”, e hoje entendo que só é possível se sentir totalmente livre, quando se é responsável. A irresponsabilidade aprisiona, pois onde há incoerência, há insegurança e medo.
Substitua a expressão “vou olhar o meu filho brincar” por “vou brincar com meu filho”. Substitua a expressão “meu filho não fala comigo” por “meu filho não fala dele porque eu não pergunto, ou quando pergunto eu quero ouvir a resposta adequada, e não a que ele vai dizer”. Substitua a frase “você vai melhorar” por “estarei ao seu lado, ainda que você não melhore”.
Os índices de suicídio entre os jovens nunca estiveram tão altos, em parte pelo aumento do distanciamento e isolamento entre as pessoas, com uma maior possibilidade de prazeres imediatos e momentâneos, porém fugazes, ou seja, fáceis. Deveria ser o contrário...se temos mais acesso ao prazer, porque temos hoje mais acesso também à angústia, ansiedade e Depressão?
Porque são consequência da ausência do aprendizado sobre a frustração. Então, eu não sou mais feliz quando sinto prazer, eu sou mais feliz quando consigo lidar com as dificuldades que aparecem na minha vida, ao sustentar meu posicionamento de constante aprendizado. Nenhum ser chega à adolescência sabendo disso, se já não tiver internalizado que o amor inclui a renúncia e o não, se não tiver aprendido a ceder, a esperar, a lidar com os intervalos, com o ócio, o “fazer nada”. Observo as crianças perguntando... mas o que vou fazer agora? Nada? Estão perdendo a capacidade de contemplar, de observar a natureza, de correr no gramado, de parar pra beber um copo d'água, pois não querem perder tempo!
Enquanto isso, suas células vão absorvendo a pressa. O tempo vai perdendo o compasso, como se pudessem adiantar os segundos!
Não podem.