Quantas vezes já
ouvimos isso na infância? Expressão corriqueira de uns vinte anos
atrás, ou mais, que caiu em desuso. Há alguns dias me deparei com
uma frase de Pablo Neruda: “Você é livre para fazer suas
escolhas, mas é prisioneiro das conseqüências”. A frase me fez
retomar esse assunto, que vai e volta muitas vezes nos meus
pensamentos, na tentativa de compreender onde foi que as pessoas
começaram a buscar somente a liberdade, ou o próprio bem estar, ao
invés do aprendizado.
Aprender talvez seja a
maior prova da nossa vitalidade, mas envolve tanto a assimilação
quanto a experiência. E uma vez que temos a sorte de não ter o
controle das nossas experiências de vida, nos frustramos. Fato. E
assim como o aprendizado é a nossa maior conexão com a própria
vida, não é possível passar por ela sem a frustração.
Ilustrando o que acabei
de dizer, podemos imaginar um choro doído de uma criança, gritado
ou mesmo sentido em silêncio, que não se quer ouvir porque ouvir o
choro incomoda. Ou mesmo um questionamento que surge para furar as
certezas, as leituras de mundo construídas anos a fio, mas que não
podem ser tomadas como rochedos intactos, imutáveis, que irão
permanecer iguais ao longo de toda uma existência, porque não vão.
Toda vez que uma criança
pede algo, ela está experimentando seu lugar de demandante no mundo,
não necessariamente para ser atendida. Toda vez que uma criança
acredita que ela precisa de algo mas os pais sabem que ela não
precisa, e ainda assim cedem e lhe dão, é uma oportunidade perdida
de aprendizado. Talvez não saibam que o aprendizado pode ocorrer com
afeto, e que afeto é mais do que carícia. A carícia, o afago, o
colo, são uma parte do amplo dispositivo de cuidado afetivo que os
pais potencialmente têm. O afeto também existe numa orientação,
numa fala mais firme, num posicionamento que não desencoraja, não
traumatiza, pois estimula o crescimento emocional, não sendo ofensivo nem arrogante.
Quando vejo gerações
de jovens que desaprenderam a olhar, abraçar, ouvir o outro, a se
importar com a dor que não é dele, me pergunto aonde seus pais
estão errando. Aonde estão falhando em ensinar a compaixão, que
até está presente no discurso, mas não nas ações do dia-a-dia? E
porque estão se tornando indivíduos cada vez mais isolados, presos
em seus estereótipos de imagem social, mas que muitas vezes não são
condizentes com o que realmente sentem, ou são? O distanciamento
entre pais e filhos não é fruto de um fato, mas de um conjunto de
atitudes que vão acontecendo ao longo de anos. Os pais precisam
parar de perguntar diariamente "como o filho foi na escola", para
perguntar como ele está se sentindo naquele dia, porque o fato de um assunto
não ser abordado não o faz desaparecer, e o que não encontra
expressão, pode ser vivenciado como angústia, sofrimento, dor.
Porque para dores físicas temos sempre um analgésico, e para dores
da alma não temos um abraço?
Cresci lendo uma frase
no diário escolar, ao longo de vários anos: “Liberdade com
responsabilidade”, e hoje entendo que só é possível se sentir
totalmente livre, quando se é responsável. A irresponsabilidade
aprisiona, pois onde há incoerência, há insegurança e medo.
Substitua a expressão
“vou olhar o meu filho brincar” por “vou brincar com meu
filho”. Substitua a expressão “meu filho não fala comigo” por
“meu filho não fala dele porque eu não pergunto, ou quando
pergunto eu quero ouvir a resposta adequada, e não a que ele vai
dizer”. Substitua a frase “você vai melhorar” por “estarei
ao seu lado, ainda que você não melhore”.
Os índices de suicídio
entre os jovens nunca estiveram tão altos, em parte pelo aumento do
distanciamento e isolamento entre as pessoas, com uma maior
possibilidade de prazeres imediatos e momentâneos, porém fugazes,
ou seja, fáceis. Deveria ser o contrário...se temos mais acesso ao
prazer, porque temos hoje mais acesso também à angústia, ansiedade
e Depressão?
Porque são consequência
da ausência do aprendizado sobre a frustração. Então, eu não sou
mais feliz quando sinto prazer, eu sou mais feliz quando consigo
lidar com as dificuldades que aparecem na minha vida, ao sustentar
meu posicionamento de constante aprendizado. Nenhum ser chega à
adolescência sabendo disso, se já não tiver internalizado que o
amor inclui a renúncia e o não, se não tiver aprendido a ceder, a
esperar, a lidar com os intervalos, com o ócio, o “fazer nada”.
Observo as crianças perguntando... mas o que vou fazer agora? Nada?
Estão perdendo a capacidade de contemplar, de observar a natureza,
de correr no gramado, de parar pra beber um copo d'água, pois não
querem perder tempo!
Enquanto isso, suas
células vão absorvendo a pressa. O tempo vai perdendo o compasso,
como se pudessem adiantar os segundos!
Não podem.

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