Através da experiência no atendimento psicológico a deficientes auditivos ao longo dos anos, observando o sofrimento de alguns deles e as dificuldades que enfrentam diante de um mundo ainda em transformação em relação à surdez, percebi que existe uma grande diferença entre aceitação e aprovação.
Independentemente do caminho escolhido, ou do caminho possível, seja através da Língua Oral exclusiva, da LIBRAS ou do Bilinguismo, tenho observado que a busca pelo desenvolvimento global se inicia com mais enfoque nos aspectos cognitivos do que nos emocionais, o que é natural numa sociedade voltada para a produtividade. Com isso, o grande questionamento da maioria das famílias nos primeiros anos de tratamento e acompanhamento da deficiência ocorre em relação à aquisição da leitura e escrita, o aprendizado escolar e, no futuro, a inserção no mercado de trabalho.
Pensando nas imensas possibilidades tecnológicas atuais, que favorecem o desenvolvimento da comunicação, de maneira geral, chegamos à conclusão de que existe maior probabilidade hoje de nos depararmos com bons prognósticos, tomando a esfera cognitiva como parâmetro.
Mas isso não é tudo. Não é o suficiente. Porque somos seres dotados de um potencial espetacular para o pensamento e raciocínio lógico, mas também somos igualmente dotados de um potencial afetivo estrondoso, que nos mantém vivos, nos mantém ligados às outras pessoas à nossa volta, principalmente através da comunicação.
Comunic- ação. Não é fazer de conta que está entendendo o que o outro está dizendo para o outro achar que você o aceita, porque se você finge, você não o aceita. Não é começar uma frase olhando no olho e terminar já dobrando a esquina, porque se o seu interlocutor é deficiente auditivo ele precisa estar olhando pra você o tempo todo. Não é subestimar a necessidade de quem não ouve como você, de ter acesso a mais da metade do conteúdo das informações disponíveis. Se isso não acontece, a comunicação não acontece.
No processo de aquisição da Linguagem, os sujeitos se utilizam da cognição, mas ao colocá-la em prática, ela não serve para nada se não existe o outro, então a ação é cognitiva e também sócio-afetiva, ou seja, emocional. O que observamos em muitas famílias é uma grande preocupação com o desenvolvimento das habilidades, mas não necessariamente com a forma como o deficiente auditivo está se sentindo. Não é raro encontrar adolescentes e jovens buscando a todo custo a aprovação social, muitas vezes deixando de utilizar o aparelho auditivo ou o Implante Coclear, ou mesmo a LIBRAS, para que sua deficiência não apareça. Acostumam-se, com o passar dos anos, a não se sentirem valorizados e aceitos como são, o que pode trazer graves consequências para a auto-estima, afetando a autoconfiança.
Embora a demanda de tratamento psicológico seja muito particular, muitos deficientes auditivos desenvolvem recursos saudáveis de resposta emocional às diversas situações da vida. No entanto, para aqueles que se vêem diante de dilemas e conflitos internos, a intervenção psicológica, em qualquer idade e circunstância, lança luz sobre a importância de cada sujeito ser compreendido, ao expressar seus sentimentos, favorecendo o seu crescimento pessoal.
A aceitação independe da aprovação do outro. Não há o que se provar, há o que se acreditar.
Quando acreditamos na capacidade destas pessoas para vencerem os obstáculos que se colocam em seu caminho, não importa o quão diferente elas sejam, mas como, do seu jeito singular e único, irão participar do mosaico em que todos nós estamos inseridos chamado sociedade.
*Texto publicado no blog "Crônicas da surdez", de Paula Pfeifer Moreira, em Abril de 2017, com o título "Atendimento Psicológico para surdos".
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