sexta-feira, 29 de março de 2013

Pais no Espelho


É comum crianças darem trabalho. Mas podem dar mais trabalho ainda se os adultos que lidam com elas optarem pelo menor esforço. É certo que os afazeres e obrigações diárias acabam plugando as pessoas no automático, favorecendo a repetição de um padrão de atitudes nada tolerantes.

A maioria das coisas que os filhos aprendem é proveniente do que eles apreendem das experiências vividas com seus pais ou cuidadores. Vendo assim, não adianta falar pra não gritar, gritando. Nem pedir para os filhos comerem se eles nunca sentam-se à mesa e assistem aos pais comendo. Não adianta pregar o amor com raiva. Pais intolerantes geram filhos intolerantes.

Crianças são antenas parabólicas que nunca dão defeito. Sabem bem o que acontece à sua volta e, mesmo quando não estão falando sobre isto, não significa que não estejam percebendo. Em famílias menos sutis, em que a palavra é aberta e impulsiva, anos se passam enquadrando as crianças em rótulos que muitas vezes duram uma vida inteira. “Esse menino é muito levado!” “Pode falar qualquer coisa na frente dele que ele é distraído...” “Fulano está com notas ruins...pudera, não gosta de estudar!”

Tudo vai bem até que a criança aparece com um comportamento “inadequado”, o que chamamos em Psicologia como “sintoma”. Os pais não fazem idéia do motivo, e muitas vezes sentem-se perdidos:“Preciso descobrir o que há de errado com o meu filho”.

Profissionais de saúde mais atentos devem receber a queixa, mas nunca deixar de pesquisar a família, sobretudo o casal parental. E, ao verificarem um aspecto psicológico importante, encaminhá-los a um profissional psicólogo. Eu acredito no trabalho da Psicanálise, na possibilidade de abordagem do Inconsciente.

O sintoma de uma criança pode ser útil, pois é o sinal necessário para perceber que algo da relação com os pais precisa ser mudado. Em muitos momentos, o socorro que estão pedindo está mais ligado à sua própria conduta, e quando não é um pedido claro, não se pode desperdiçar uma oportunidade dessas de funcionar como um espelho para eles. Por isso é tão importante acolhê-los, para que possam se perguntar como estão exercendo seu papel de pais.O sintoma que incide no comportamento da criança tem sua serventia, desde que tais questões não fiquem reduzidas a tratamentos puramente medicamentosos ou que sequer cogitem o acolhimento e orientação aos pais.

Dia desses recebi uma mãe que fez o seguinte comentário: “ Fui à pracinha com meu filho e pela primeira vez não fiquei falando o tempo todo o que ele devia e o que não devia fazer. Parei para me perceber, e o quanto minha atitude contribui para a ansiedade e impaciência dele.”

Um pai ou mãe que tenha a sensibilidade de se ver enquanto cuidador pode observar que a resistência em olhar para as próprias atitudes pode ser o núcleo do problema.

sábado, 16 de março de 2013

Doença não dá em poste.


Ouvi essa frase em 1999 quando estagiava no setor de Psicologia médica do Hospital do Fundão (UFRJ), de um paciente idoso e extremamente mal humorado. Sozinho, tinha sido encaminhado para atendimento e lá fui eu com o supervisor para atendê-lo.
Distímico, (Distimia é um distúrbio psiquiátrico caracterizado pela falta de prazer na vida e constante sentimento de negatividade), trocou apenas algumas palavras, e ao ser peguntado sobre o que o havia levado ao hospital, respondeu: “Doença não dá em poste”. E só.
Atualmente trabalhando num hospital público no estado do RJ, me deparo com os mais variados tipos de pessoas e situações. O estágio no hospital universitário era só o começo.
Já ouvi muitas histórias e outras presenciei, e pretendo escrever sobre elas por aqui.
Mas da tal da frase lá em cima, eu me lembrei essa semana, quando estava diante de um casal de meia idade, ele internado, ela acompanhando. Ela não saía do lado do leito, a não ser pra fazer suas refeições. Ele dizia que está melhorando. Ela, um tanto mais contrariada, contou que ele “está pra fazer uma biópsia”. Falou na frente dele mesmo, porque disse que “não tem problema”, o que o deixa triste não é sua doença, mas o fato de estar longe do neto, de 8 anos, que nasceu com paralisia cerebral.
Pausa pra ver as fotos. Procurando a foto do menino ela achou de todo o resto da família e me mostrou. Simpática, alegre, com aquele riso que não combina com doença. Feliz. (E vai dizer que não...)
Essa família humilde criou os três filhos e agora cria os netos, sendo que um é especial.
Reparem que não disse deficiente, mas especial, e como não me referir assim a uma criança que é tão importante e vitoriosa, a ponto de manter acesa a chama da vida para alguém que só faz cuidar de sua doença ultimamente?
Doença não dá em poste...
Mas em quem vive.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sociedade surda?


Para aqueles que conhecem pessoas surdas, é comum ouvir a expressão “comunidade surda”, referindo-se ao grupo social ao qual pertencem os indivíduos com perda auditiva ou surdez profunda, que se identificam, estabelecendo uma rotina de convivência a partir desta condição.
Mas fico me perguntando se os verdadeiros surdos não somos nós, que não ouvimos os apelos pela dignidade, respeito e assistência às suas necessidades, que são, de fato, especiais.
Tal reflexão surgiu a partir do telefonema de uma amiga também psicóloga, que recebeu na rede pública um paciente surdo que necessitava de assistência psicológica urgente. Sem domínio da escrita e da fala, utiliza unicamente a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) para se comunicar.
Me intrigou saber que eu simplesmente não conheço nenhum órgão público no RJ que disponha de um psicólogo clínico que atenda em LIBRAS.
Não adiantava encaminhá-lo pra mim, eu não trabalho na rede pública. E talvez isso resolvesse o problema deste paciente, mas e os outros?
Telefonei para uma instiuição importante na área e a resposta foi bem sincera: “Olha, eu não tenho para onde encaminhar essa pessoa para atendimento”.
Será que é tão difícil imaginar que uma pessoa surda possa precisar de assistência médica, odontológica, psicológica, entre outras necessidades às quais têm direito?
“Ah, mas existem os intérpretes de LIBRAS, que podem mediar a comunicação com os profissionais”, alguém diria.
Ok, mas quem gostaria de ser atendido por um psicólogo, tendo a conversação mediada por uma outra pessoa, com a qual não tem a menor intimidade. Ou mesmo que tivesse, seria digno?
Não precisamos ir muito longe para pensar essa questão, é só verificar entre os estabelecimentos que frequentamos no dia a dia, se os profissionais têm noções básicas de LIBRAS.
Em serviços de ermergência, se a pessoa não souber o Português falado ou escrito, mas tiver aprendido LIBRAS, como irá relatar o que está sentindo naquele exato momento?
Gosto de pensar que a nossa sociedade está em evolução e que daqui a algum tempo não precisaremos nos deparar com tamanha falta de humanidade.
Quanto ao paciente em questão, respondi à amiga psicóloga que, enquanto parte desta sociedade que não lhe escuta, temos muito o que mudar. Não tinha uma opção digna e plausível para sugerir.  

domingo, 3 de março de 2013

Sejam bem-vindos!! O blog já existia, mas estava (coitado) meio deixado de lado. Ele nasceu de um desejo antigo de compartilhar algumas experiências vividas na minha prática clínica. Eu trabalho com a palavra, e é ela que me conduz ao universo do interior de cada sujeito, desde crianças em tenra idade até idosos.
Procurarei sempre proteger a identidade dos sujeitos, bem como aspectos que poderiam torná-la dedutível.
C'mon!