Para aqueles que conhecem pessoas surdas, é
comum ouvir a expressão “comunidade surda”, referindo-se ao
grupo social ao qual pertencem os indivíduos com perda auditiva ou
surdez profunda, que se identificam, estabelecendo uma rotina de
convivência a partir desta condição.
Mas fico me perguntando se os
verdadeiros surdos não somos nós, que não ouvimos os apelos pela
dignidade, respeito e assistência às suas necessidades, que são,
de fato, especiais.
Tal reflexão surgiu a partir do
telefonema de uma amiga também psicóloga, que recebeu na rede
pública um paciente surdo que necessitava de assistência
psicológica urgente. Sem domínio da escrita e da fala, utiliza
unicamente a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) para se comunicar.
Me intrigou saber que eu simplesmente
não conheço nenhum órgão público no RJ que disponha de um psicólogo
clínico que atenda em LIBRAS.
Não adiantava encaminhá-lo pra mim,
eu não trabalho na rede pública. E talvez isso resolvesse o
problema deste paciente, mas e os outros?
Telefonei para uma instiuição
importante na área e a resposta foi bem sincera: “Olha, eu não
tenho para onde encaminhar essa pessoa para atendimento”.
Será que é tão difícil imaginar que
uma pessoa surda possa precisar de assistência médica,
odontológica, psicológica, entre outras necessidades às quais têm
direito?
“Ah, mas existem os intérpretes de
LIBRAS, que podem mediar a comunicação com os profissionais”,
alguém diria.
Ok, mas quem gostaria de ser atendido
por um psicólogo, tendo a conversação mediada por uma outra
pessoa, com a qual não tem a menor intimidade. Ou mesmo que tivesse,
seria digno?
Não precisamos ir muito longe para
pensar essa questão, é só verificar entre os estabelecimentos que
frequentamos no dia a dia, se os profissionais têm noções básicas
de LIBRAS.
Em serviços de ermergência, se a
pessoa não souber o Português falado ou escrito, mas tiver
aprendido LIBRAS, como irá relatar o que está sentindo naquele
exato momento?
Gosto de pensar que a nossa sociedade
está em evolução e que daqui a algum tempo não precisaremos nos
deparar com tamanha falta de humanidade.
Quanto ao paciente em questão,
respondi à amiga psicóloga que, enquanto parte desta sociedade que
não lhe escuta, temos muito o que mudar. Não tinha uma opção
digna e plausível para sugerir.
É um caso a pensar com urgência!
ResponderExcluir