quarta-feira, 6 de março de 2013

Sociedade surda?


Para aqueles que conhecem pessoas surdas, é comum ouvir a expressão “comunidade surda”, referindo-se ao grupo social ao qual pertencem os indivíduos com perda auditiva ou surdez profunda, que se identificam, estabelecendo uma rotina de convivência a partir desta condição.
Mas fico me perguntando se os verdadeiros surdos não somos nós, que não ouvimos os apelos pela dignidade, respeito e assistência às suas necessidades, que são, de fato, especiais.
Tal reflexão surgiu a partir do telefonema de uma amiga também psicóloga, que recebeu na rede pública um paciente surdo que necessitava de assistência psicológica urgente. Sem domínio da escrita e da fala, utiliza unicamente a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) para se comunicar.
Me intrigou saber que eu simplesmente não conheço nenhum órgão público no RJ que disponha de um psicólogo clínico que atenda em LIBRAS.
Não adiantava encaminhá-lo pra mim, eu não trabalho na rede pública. E talvez isso resolvesse o problema deste paciente, mas e os outros?
Telefonei para uma instiuição importante na área e a resposta foi bem sincera: “Olha, eu não tenho para onde encaminhar essa pessoa para atendimento”.
Será que é tão difícil imaginar que uma pessoa surda possa precisar de assistência médica, odontológica, psicológica, entre outras necessidades às quais têm direito?
“Ah, mas existem os intérpretes de LIBRAS, que podem mediar a comunicação com os profissionais”, alguém diria.
Ok, mas quem gostaria de ser atendido por um psicólogo, tendo a conversação mediada por uma outra pessoa, com a qual não tem a menor intimidade. Ou mesmo que tivesse, seria digno?
Não precisamos ir muito longe para pensar essa questão, é só verificar entre os estabelecimentos que frequentamos no dia a dia, se os profissionais têm noções básicas de LIBRAS.
Em serviços de ermergência, se a pessoa não souber o Português falado ou escrito, mas tiver aprendido LIBRAS, como irá relatar o que está sentindo naquele exato momento?
Gosto de pensar que a nossa sociedade está em evolução e que daqui a algum tempo não precisaremos nos deparar com tamanha falta de humanidade.
Quanto ao paciente em questão, respondi à amiga psicóloga que, enquanto parte desta sociedade que não lhe escuta, temos muito o que mudar. Não tinha uma opção digna e plausível para sugerir.  

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