É comum crianças darem
trabalho. Mas podem dar mais trabalho ainda se os adultos que lidam
com elas optarem pelo menor esforço. É certo que os afazeres e
obrigações diárias acabam plugando as pessoas no automático,
favorecendo a repetição de um padrão de atitudes nada tolerantes.
A maioria das coisas que
os filhos aprendem é proveniente do que eles apreendem das
experiências vividas com seus pais ou cuidadores. Vendo assim, não
adianta falar pra não gritar, gritando. Nem pedir para os filhos
comerem se eles nunca sentam-se à mesa e assistem aos pais
comendo. Não adianta pregar o amor com raiva. Pais intolerantes
geram filhos intolerantes.
Crianças são antenas
parabólicas que nunca dão defeito. Sabem bem o que acontece à sua
volta e, mesmo quando não estão falando sobre isto, não significa
que não estejam percebendo. Em famílias menos sutis,
em que a palavra é aberta e impulsiva, anos se passam enquadrando as
crianças em rótulos que muitas vezes duram uma vida inteira. “Esse
menino é muito levado!” “Pode falar qualquer coisa na frente
dele que ele é distraído...” “Fulano está com notas
ruins...pudera, não gosta de estudar!”
Tudo vai bem até que a
criança aparece com um comportamento “inadequado”, o que
chamamos em Psicologia como “sintoma”. Os pais não fazem idéia
do motivo, e muitas vezes sentem-se perdidos:“Preciso descobrir o
que há de errado com o meu filho”.
Profissionais de saúde
mais atentos devem receber a queixa, mas nunca deixar de pesquisar a
família, sobretudo o casal parental. E, ao verificarem um aspecto
psicológico importante, encaminhá-los a um profissional psicólogo.
Eu acredito no trabalho da Psicanálise, na possibilidade de
abordagem do Inconsciente.
O sintoma de uma criança
pode ser útil, pois é o sinal necessário para perceber que algo da
relação com os pais precisa ser mudado. Em muitos momentos, o
socorro que estão pedindo está mais ligado à sua própria conduta,
e quando não é um pedido claro, não se pode desperdiçar uma
oportunidade dessas de funcionar como um espelho para eles. Por isso
é tão importante acolhê-los, para que possam se perguntar como
estão exercendo seu papel de pais.O sintoma que incide no
comportamento da criança tem sua serventia, desde que tais questões
não fiquem reduzidas a tratamentos puramente medicamentosos ou que
sequer cogitem o acolhimento e orientação aos pais.
Dia desses recebi uma mãe
que fez o seguinte comentário: “ Fui à pracinha com meu filho e
pela primeira vez não fiquei falando o tempo todo o que ele devia e
o que não devia fazer. Parei para me perceber, e o quanto minha
atitude contribui para a ansiedade e impaciência dele.”
Um pai ou mãe que tenha
a sensibilidade de se ver enquanto cuidador pode observar que a
resistência em olhar para as próprias atitudes pode ser o núcleo
do problema.
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