Ouvi essa frase em 1999 quando
estagiava no setor de Psicologia médica do Hospital do Fundão
(UFRJ), de um paciente idoso e extremamente mal humorado. Sozinho,
tinha sido encaminhado para atendimento e lá fui eu com o supervisor
para atendê-lo.
Distímico, (Distimia é um distúrbio psiquiátrico
caracterizado pela falta de prazer na vida e constante sentimento de
negatividade), trocou apenas algumas palavras, e ao ser peguntado
sobre o que o havia levado ao hospital, respondeu: “Doença não dá
em poste”. E só.
Atualmente trabalhando num hospital
público no estado do RJ, me deparo com os mais variados tipos de
pessoas e situações. O estágio no hospital universitário era só
o começo.
Já ouvi muitas histórias e outras
presenciei, e pretendo escrever sobre elas por aqui.
Mas da tal da frase lá em cima, eu me
lembrei essa semana, quando estava diante de um casal de meia idade,
ele internado, ela acompanhando. Ela não saía do lado do leito, a
não ser pra fazer suas refeições. Ele dizia que está melhorando.
Ela, um tanto mais contrariada, contou que ele “está pra fazer uma
biópsia”. Falou na frente dele mesmo, porque disse que “não tem
problema”, o que o deixa triste não é sua doença, mas o
fato de estar longe do neto, de 8 anos, que nasceu com paralisia
cerebral.
Pausa pra ver as fotos. Procurando a
foto do menino ela achou de todo o resto da família e me mostrou.
Simpática, alegre, com aquele riso que não combina com doença.
Feliz. (E vai dizer que não...)
Essa família humilde criou os três
filhos e agora cria os netos, sendo que um é especial.
Reparem que não disse deficiente, mas
especial, e como não me referir assim a uma criança que é tão
importante e vitoriosa, a ponto de manter acesa a chama da vida para
alguém que só faz cuidar de sua doença ultimamente?
Doença não dá em poste...
Mas em quem vive.
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