sábado, 16 de março de 2013

Doença não dá em poste.


Ouvi essa frase em 1999 quando estagiava no setor de Psicologia médica do Hospital do Fundão (UFRJ), de um paciente idoso e extremamente mal humorado. Sozinho, tinha sido encaminhado para atendimento e lá fui eu com o supervisor para atendê-lo.
Distímico, (Distimia é um distúrbio psiquiátrico caracterizado pela falta de prazer na vida e constante sentimento de negatividade), trocou apenas algumas palavras, e ao ser peguntado sobre o que o havia levado ao hospital, respondeu: “Doença não dá em poste”. E só.
Atualmente trabalhando num hospital público no estado do RJ, me deparo com os mais variados tipos de pessoas e situações. O estágio no hospital universitário era só o começo.
Já ouvi muitas histórias e outras presenciei, e pretendo escrever sobre elas por aqui.
Mas da tal da frase lá em cima, eu me lembrei essa semana, quando estava diante de um casal de meia idade, ele internado, ela acompanhando. Ela não saía do lado do leito, a não ser pra fazer suas refeições. Ele dizia que está melhorando. Ela, um tanto mais contrariada, contou que ele “está pra fazer uma biópsia”. Falou na frente dele mesmo, porque disse que “não tem problema”, o que o deixa triste não é sua doença, mas o fato de estar longe do neto, de 8 anos, que nasceu com paralisia cerebral.
Pausa pra ver as fotos. Procurando a foto do menino ela achou de todo o resto da família e me mostrou. Simpática, alegre, com aquele riso que não combina com doença. Feliz. (E vai dizer que não...)
Essa família humilde criou os três filhos e agora cria os netos, sendo que um é especial.
Reparem que não disse deficiente, mas especial, e como não me referir assim a uma criança que é tão importante e vitoriosa, a ponto de manter acesa a chama da vida para alguém que só faz cuidar de sua doença ultimamente?
Doença não dá em poste...
Mas em quem vive.

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