terça-feira, 30 de abril de 2019

Não foi por falta de aviso.



Quantas vezes já ouvimos isso na infância? Expressão corriqueira de uns vinte anos atrás, ou mais, que caiu em desuso. Há alguns dias me deparei com uma frase de Pablo Neruda: “Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das conseqüências”. A frase me fez retomar esse assunto, que vai e volta muitas vezes nos meus pensamentos, na tentativa de compreender onde foi que as pessoas começaram a buscar somente a liberdade, ou o próprio bem estar, ao invés do aprendizado.
Aprender talvez seja a maior prova da nossa vitalidade, mas envolve tanto a assimilação quanto a experiência. E uma vez que temos a sorte de não ter o controle das nossas experiências de vida, nos frustramos. Fato. E assim como o aprendizado é a nossa maior conexão com a própria vida, não é possível passar por ela sem a frustração.
Ilustrando o que acabei de dizer, podemos imaginar um choro doído de uma criança, gritado ou mesmo sentido em silêncio, que não se quer ouvir porque ouvir o choro incomoda. Ou mesmo um questionamento que surge para furar as certezas, as leituras de mundo construídas anos a fio, mas que não podem ser tomadas como rochedos intactos, imutáveis, que irão permanecer iguais ao longo de toda uma existência, porque não vão.
Toda vez que uma criança pede algo, ela está experimentando seu lugar de demandante no mundo, não necessariamente para ser atendida. Toda vez que uma criança acredita que ela precisa de algo mas os pais sabem que ela não precisa, e ainda assim cedem e lhe dão, é uma oportunidade perdida de aprendizado. Talvez não saibam que o aprendizado pode ocorrer com afeto, e que afeto é mais do que carícia. A carícia, o afago, o colo, são uma parte do amplo dispositivo de cuidado afetivo que os pais potencialmente têm. O afeto também existe numa orientação, numa fala mais firme, num posicionamento que não desencoraja, não traumatiza, pois estimula o crescimento emocional, não sendo ofensivo nem arrogante.
Quando vejo gerações de jovens que desaprenderam a olhar, abraçar, ouvir o outro, a se importar com a dor que não é dele, me pergunto aonde seus pais estão errando. Aonde estão falhando em ensinar a compaixão, que até está presente no discurso, mas não nas ações do dia-a-dia? E porque estão se tornando indivíduos cada vez mais isolados, presos em seus estereótipos de imagem social, mas que muitas vezes não são condizentes com o que realmente sentem, ou são? O distanciamento entre pais e filhos não é fruto de um fato, mas de um conjunto de atitudes que vão acontecendo ao longo de anos. Os pais precisam parar de perguntar diariamente "como o filho foi na escola", para perguntar como ele está se sentindo naquele dia, porque o fato de um assunto não ser abordado não o faz desaparecer, e o que não encontra expressão, pode ser vivenciado como angústia, sofrimento, dor. Porque para dores físicas temos sempre um analgésico, e para dores da alma não temos um abraço?
Cresci lendo uma frase no diário escolar, ao longo de vários anos: “Liberdade com responsabilidade”, e hoje entendo que só é possível se sentir totalmente livre, quando se é responsável. A irresponsabilidade aprisiona, pois onde há incoerência, há insegurança e medo.
Substitua a expressão “vou olhar o meu filho brincar” por “vou brincar com meu filho”. Substitua a expressão “meu filho não fala comigo” por “meu filho não fala dele porque eu não pergunto, ou quando pergunto eu quero ouvir a resposta adequada, e não a que ele vai dizer”. Substitua a frase “você vai melhorar” por “estarei ao seu lado, ainda que você não melhore”.
Os índices de suicídio entre os jovens nunca estiveram tão altos, em parte pelo aumento do distanciamento e isolamento entre as pessoas, com uma maior possibilidade de prazeres imediatos e momentâneos, porém fugazes, ou seja, fáceis. Deveria ser o contrário...se temos mais acesso ao prazer, porque temos hoje mais acesso também à angústia, ansiedade e Depressão?
Porque são consequência da ausência do aprendizado sobre a frustração. Então, eu não sou mais feliz quando sinto prazer, eu sou mais feliz quando consigo lidar com as dificuldades que aparecem na minha vida, ao sustentar meu posicionamento de constante aprendizado. Nenhum ser chega à adolescência sabendo disso, se já não tiver internalizado que o amor inclui a renúncia e o não, se não tiver aprendido a ceder, a esperar, a lidar com os intervalos, com o ócio, o “fazer nada”. Observo as crianças perguntando... mas o que vou fazer agora? Nada? Estão perdendo a capacidade de contemplar, de observar a natureza, de correr no gramado, de parar pra beber um copo d'água, pois não querem perder tempo!
Enquanto isso, suas células vão absorvendo a pressa. O tempo vai perdendo o compasso, como se pudessem adiantar os segundos!
Não podem.


segunda-feira, 18 de março de 2019

Como a Psicologia pode ajudar o deficiente auditivo a viver melhor.

Através da experiência no atendimento psicológico a deficientes auditivos ao longo dos anos, observando o sofrimento de alguns deles e as dificuldades que enfrentam diante de um mundo ainda em transformação em relação à surdez, percebi que existe uma grande diferença entre aceitação e aprovação.

Independentemente do caminho escolhido, ou do caminho possível, seja através da Língua Oral exclusiva, da LIBRAS ou do Bilinguismo, tenho observado que a busca pelo desenvolvimento global se inicia com mais enfoque nos aspectos cognitivos do que nos emocionais, o que é natural numa sociedade voltada para a produtividade. Com isso, o grande questionamento da maioria das famílias nos primeiros anos de tratamento e acompanhamento da deficiência ocorre em relação à aquisição da leitura e escrita, o aprendizado escolar e, no futuro, a inserção no mercado de trabalho.

Pensando nas imensas possibilidades tecnológicas atuais, que favorecem o desenvolvimento da comunicação, de maneira geral, chegamos à conclusão de que existe maior probabilidade hoje de nos depararmos com bons prognósticos, tomando a esfera cognitiva como parâmetro.

Mas isso não é tudo. Não é o suficiente. Porque somos seres dotados de um potencial espetacular para o pensamento e raciocínio lógico, mas também somos igualmente dotados de um potencial afetivo estrondoso, que nos mantém vivos, nos mantém ligados às outras pessoas à nossa volta, principalmente através da comunicação.

Comunic- ação. Não é fazer de conta que está entendendo o que o outro está dizendo para o outro achar que você o aceita, porque se você finge, você não o aceita. Não é começar uma frase olhando no olho e terminar já dobrando a esquina, porque se o seu interlocutor é deficiente auditivo ele precisa estar olhando pra você o tempo todo. Não é subestimar a necessidade de quem não ouve como você, de ter acesso a mais da metade do conteúdo das informações disponíveis. Se isso não acontece, a comunicação não acontece.


No processo de aquisição da Linguagem, os sujeitos se utilizam da cognição, mas ao colocá-la em prática, ela não serve para nada se não existe o outro, então a ação é cognitiva e também sócio-afetiva, ou seja, emocional. O que observamos em muitas famílias é uma grande preocupação com o desenvolvimento das habilidades, mas não necessariamente com a forma como o deficiente auditivo está se sentindo. Não é raro encontrar adolescentes e jovens buscando a todo custo a aprovação social, muitas vezes deixando de utilizar o aparelho auditivo ou o Implante Coclear, ou mesmo a LIBRAS, para que sua deficiência não apareça. Acostumam-se, com o passar dos anos, a não se sentirem valorizados e aceitos como são, o que pode trazer graves consequências para a auto-estima, afetando a autoconfiança.

Embora a demanda de tratamento psicológico seja muito particular, muitos deficientes auditivos desenvolvem recursos saudáveis de resposta emocional às diversas situações da vida. No entanto, para aqueles que se vêem diante de dilemas e conflitos internos, a intervenção psicológica, em qualquer idade e circunstância, lança luz sobre a importância de cada sujeito ser compreendido, ao expressar seus sentimentos, favorecendo o seu crescimento pessoal.

A aceitação independe da aprovação do outro. Não há o que se provar, há o que se acreditar.
Quando acreditamos na capacidade destas pessoas para vencerem os obstáculos que se colocam em seu caminho, não importa o quão diferente elas sejam, mas como, do seu jeito singular e único, irão participar do mosaico em que todos nós estamos inseridos chamado sociedade.

*Texto publicado no blog "Crônicas da surdez", de Paula Pfeifer Moreira, em Abril de 2017, com o título  "Atendimento Psicológico para surdos".

sábado, 11 de julho de 2015

A obrigação de ser feliz.

Em alguns momentos da minha vida profissional fui questionada sobre a necessidade de se falar para as crianças sobre a morte. E percebi que, para algumas pessoas, é difícil falar do assunto porque acreditam que a morte seja um tipo de fracasso. Como se tivéssemos a "missão" de triunfar sobre ela, e a obrigação de ser feliz. Como falar do que acreditamos ser um fracasso, num contexto cultural que só aceita o sucesso? E mais, que diz o que é o sucesso. Assim, arbitrariamente. O melhor carro, o melhor corpo, a saúde.
Ao longo da trajetória profissional, aprendi a não ter muitas certezas. Desaprendi a generalizar, e achar que a saída para determinado problema é uma. Ao ouvir tantas pessoas falarem de suas dores, aprendi que uma boa parte do remédio para elas é inventado. Ou melhor, é um tipo de reinvenção.
Voltemos às crianças. Então, para aprender (e ensinar) a lidar com a  morte, é preciso aprender a lidar com a perda. "Mas não é um assunto pesado demais para crianças?"
Não, na medida que entendemos que ela pode ser vivenciada em pequenas ações, gestos e palavras simples do dia a dia. Num primeiro momento, evitamos falar ou vivenciar situações de frustração com as crianças. Um recém nascido, por exemplo, não tem condições emocionais e cognitivas de elaborar uma situação de frustração como bebês um pouco maiores. Ainda estão no registro da necessidade e desde o primeiro dia, apenas experimentando o desejo. O que é isso? Ele precisa de pele, de preferência a da mãe, mas na falta dela, a de alguém. Ele precisa de alimento no estômago, de preferência o leite materno, mas na falta dele, um leite. O que desperta o alimento afetivo é o alimento orgânico, daí uma importância a mais de responder ao chamado para saciar a fome.
Não há um marco oficial nem genérico, mas ao longo do primeiro ano, o bebê aprende a reconhecer seus cuidadores e experimenta o desejo através da falta que começa a sentir deles.
Não se iluda, se você é um cuidador, a frustração vai acontecer, você querendo ou não. E, acredite, ela é vital.
Por que então a sociedade não aceita a importância da frustração, e a evita, de todas as formas possíveis? Por que então a cada vez que nos deparamos com nossos limites, somos levados a crer que eles não deveriam estar ali? Por que então que interpretamos as barreiras que se colocam no nosso caminho como impedimentos e não como desvios de percurso? Uma criança que aprende a andar o faz amparada justamente pelo que está em torno dela, e dificultariam seu aprendizado se lá não estivessem.
Por que motivo então, de diversas, e digo, bem diversas formas, as nossas crianças são levadas a crer que devem ser os melhores? Os melhores alunos, com as melhores notas, os melhores smartphones...
Na prática, os adultos estão preparando as crianças para lidarem com o sucesso, mas não cogitam a possibilidade de fracasso, como se não pudesse ocorrer, e com eles não pudessem aprender nada. Dizem como e quando serão felizes.
A beleza da vida, essa que experimentamos em nosso corpo, está justamente nos caminhos que percorremos, nas cicatrizes que carregamos, na história que construímos, que, querendo ou não, inclui as nossas dores.
Porque é através delas que crescemos e que podemos aprender, desde que o fracasso seja interpretado como o resultado possível de uma dada experiência, o que pode ser regenerador, se este resto for encarado como "adubo", justamente o que faz a vida renascer.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sobre a maternidade.

Muito se passou desde a última postagem por aqui. Aos 40 anos, engravidei e hoje sou mãe de uma linda menina, que tem sido minha fonte de alegria desde então, ela e o pai dela, minha família, com a qual divido dores e amores.
Esperei o tempo certo para voltar a escrever, que, como tudo o que há de mais sublime na vida, precisa ser natural.
Desde que sou mãe, minha leitura do mundo mudou. Vejo bebês, crianças, adultos e sobretudo os idosos por uma outra lente. Idosos têm uma atração muito intensa por bebês. Deve ser por guardarem a inocência que é o que, afinal, nos resta depois que não somos mais tão interessantes aos olhos da Humanidade.
Demorei pra aprender a ter paciência. Mas aprendi. Eles têm outro tempo, outro ir e vir. Dia desses, na fila do banco, uma senhora ficou ensinando a Clara a dar a língua. Um outro senhor, deu um molho de umas dez chaves pra ela brincar. Respirei, continuei conversando, mas deixei que ela interagisse com eles, sob o meu olhar. Não interferi. Eu não dou a língua e Clara já sabe que não brinca com as chaves.
Tudo bem, passados alguns minutos ela já tinha esquecido. O mundo esta aí, eu tenho minhas crenças do que é bom pra ela, mas ela tem direito de dar tchau e mandar beijo pra quem quiser, até pro mendigo da rua, ou o motoqueiro parado no sinal. Isso, é dela.
Mas porque mesmo eu comecei a falar da experiência de ser mãe?
Porque depois disso, a minha leitura da prática clínica também é outra.
Hoje estou também do lado de quem acorda no meio da noite pra ver se a filha está coberta. De quem procura se tranquilizar em meio a uma febre inesperada. De quem tem aflições e medos normais de mãe, que antes, só conhecia de ouvir dizer.
Eu poderia escrever muitas coisas, sobre a experiência da gravidez, da amamentação, das noites sem dormir, do chorinho que não passa, do retorno ao trabalho com a cabeça em casa, do desmame.
Mas foi como uma viagem transcendental, muito visceral e pouco definível. As dores, o cansaço, a simbiose bem própria deste início de vida foi tão forte, que as palavras vieram depois. E sobre o depois.
Hoje, ela fala. Ela pede, ela quer. Ela prefere suco do que água, ou vice-versa. Ela sabe que não pode, porque mamãe e papai já deixaram bem claro, mas ela vai lá e faz. Olhando pra nós, com aquele olhar de "E aí? Não vai falar nada?"
Hoje ela frequenta a creche. E posso dizer, após vinte dias, que está adaptada.
Toda a vivência da maternidade é redefinida após a adaptação na creche. É, de fato, o espaço dela, e eu confesso que, no início, não sabia muito bem onde começava e onde terminava o meu. Vários pais, avós e babás ansiosos como eu, em meio a inúmeras crianças chorando. Foi quando alguém falou..."se eu tivesse visitado a creche na primeira semana de aula, jamais teria matriculado meu filho!!" E gargalhamos...
Todos começaram a se conhecer e trocar impressões. Logo, logo ficamos sabemos das histórias de algumas crianças. Acho que, por defesa, o ser humano tende a observar a história do outro e buscar o que está "errado".
Muitas crianças choravam, mas nenhuma mais do que uma, em especial. Essa, chorava sempre, todos os dias. "Mas onde está sua mãe? " "Ela é filha de estrangeiros, eles vieram ao Brasil pra trabalhar e não podem estar aqui. Ela ficava ano passado com a avó, mas essa foi embora pro país dela. Parece que a babá também vai embora. Coitada da menina..." Rapidamente criamos uns fantasmas dos pais horrorosos, com cara de monstros peludos, que ela tem. No dia seguinte àquele, lá estava a mãe da menina, com a cara mais simpática possível, educadíssima. Estou longe de saber sobre a história daquela família, mas fiquei interessada mesmo na lição aprendida. Minha sensação foi de que criamos monstros na nossa cabeça, aumentamos a carga das experiências vividas, por defesa, por medo, ou por apego. Precisamos nos sentir melhores do que os outros, talvez.
Eu não sei explicar muito bem como, mas depois de uns vinte dias, tudo mudou. Fui à escola rapidamente ao meio-dia e percebi um silêncio. As crianças estavam dormindo. Acho que quase todas. Não duvido de que a partir de agora, o som mais ouvido seja mesmo das risadas. Começam a ter rotina, a fazer roda de cantoria e pintura.
Clara está adorando. E eu posso respirar, sem culpa, que também estou, após a minha primeira manhã sozinha em um ano e um mês. Ainda mais sabendo que seria recebida por ela com um sorriso e um abraço muito apertado. Um abraço que, a meu ver, tem um quê de "obrigada, mãe, por me dar espaço".
Minha filha, sempre dei. Se fosse pra viver tudo o que meu imenso amor pede, iria te sufocar. Com certeza você não teria experimentado ficar de pé com oito meses, nem andado, de fato, com dez.
Hoje, que você já anda e corre até, faço meu esforço pra abrir espaço na nossa rotina para as suas palavras, que já chegaram. Por isso, não te atropelarei. Faça como achar melhor, minha querida, no seu tempo.
Te amo, filha.
A fofa já me sapeca um beijo quando digo isso. Já sabe o que é o amor.



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Felicidade

Se perguntarmos a qualquer pessoa o que ela mais quer da vida, garanto que mais da metade, senão todas, irão dizer, “quero ser feliz”. Mas o que será felicidade?
O significado de felicidade é muito particular, pois cada um irá associar essa condição a algum meio que possa torná-la possível. Algumas pessoas associam a felicidade ao dinheiro, outras ao poder, a um cargo importante, ou a um objetivo alcançado.
E embora as conquistas façam parte da vida, às vezes me dá a impressão de que a felicidade é sempre o que ainda não se tem.
Buscamos algo todos os dias, desde o momento que acordamos até a hora de ir dormir. E frequentemente observamos um descompasso entre o que queremos e o que podemos. Talvez a felicidade não esteja no fim do caminho, mas em algum lugar entre o que queremos e o que podemos. Naquele ponto de possível que tocamos e que dá um certo alívio, a sensação de que valeu a pena seguir até ali.
Na maioria das vezes não se tem consciência desse processo, porque o foco está no futuro. Lá onde achamos que está a felicidade. Só que a felicidade, na verdade, está bem perto. Está na aceitação de que nem tudo convém, mas nem tudo nos pode ser privado. Está na compreensão do limite das outras pessoas, do limite da vida, que traz o imprevisto pra dentro da nossa biografia. E esquecemos que o imprevisto tem dois lados, o da decepção e o da surpresa. E qual não é a nossa surpresa quando nos pegamos felizes por somente ver uma criança brincar, ou pelo fato de ter a oportunidade de brincar com ela.
As crianças, mestras nesse assunto da felicidade, parecem dela se distanciar conforme o adulto apresenta suas inconsistências, mas em alguns minutos têm a capacidade de reverter esse quadro, e mostrar o quão tênue é a linha que separa os dois lados, da decepção e da surpresa.
O mundo atual é muito volúvel, é um mundo cheio de opções para se buscar a felicidade, tantas que as pessoas se perdem. Se perdem nos exageros, nas compulsões, na falta de limite, de saber até onde ir. Enche-se o peito para dizer “eu vou alcançar o impossível”, quando talvez o “segredo” da felicidade esteja justamente em entender e diferenciar o possível do impossível, e conviver bem com isso.
Para tal, não há necessidade de se ter tanto, mas procurar ser. E ainda assim, não ser melhor do que os outros, mas saber usufruir do que se é. Sem excessos.
Porque a felicidade mesmo é composta de momentos felizes, que duram pouco, mas o tempo necessário para nos fazer estufar o peito, e seguir.


terça-feira, 14 de maio de 2013

Corações férteis


Há sempre um novo passo a ser dado. Uma nova conquista a ser alcançada. Um novo degrau pra subir. 
Para quem é solteiro...quando vai namorar. Para quem namora...quando vai casar. Para quem é casado...quando vem o bebê. E o próximo bebê, e o próximo sonho.
De quem?
Tão importante quanto ter os olhos no futuro é ter sensibilidade para saber sobre o próprio desejo.
Não o desejo dos outros, mas o seu.
Porque somente encontros genuínos são campos férteis para fazer nascer o amor.
Entre namorados, entre casais ou entre pais e filhos.
Somente o coração livre se permite entrelaçar no nó do outro, até descobrir que a solidão é, na verdade, necessária ao autoconhecimento, mas é preciso ir e vir. 
É preciso saber cuidar do próprio jardim, mas também passear pelo jardim do outro sem pisar nas folhagens, sem arrancar as flores.
Por isso, não existe amor sem respeito.
Quando for discordar, converse. Quando for dar opinião, faça isso de maneira respeitosa.
Não importa a idade nem o grau de parentesco, não importa o quão longe estamos uns dos outros.
O terreno apropriado para fazer surgir a paz, ainda é a palavra.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Pais no Espelho


É comum crianças darem trabalho. Mas podem dar mais trabalho ainda se os adultos que lidam com elas optarem pelo menor esforço. É certo que os afazeres e obrigações diárias acabam plugando as pessoas no automático, favorecendo a repetição de um padrão de atitudes nada tolerantes.

A maioria das coisas que os filhos aprendem é proveniente do que eles apreendem das experiências vividas com seus pais ou cuidadores. Vendo assim, não adianta falar pra não gritar, gritando. Nem pedir para os filhos comerem se eles nunca sentam-se à mesa e assistem aos pais comendo. Não adianta pregar o amor com raiva. Pais intolerantes geram filhos intolerantes.

Crianças são antenas parabólicas que nunca dão defeito. Sabem bem o que acontece à sua volta e, mesmo quando não estão falando sobre isto, não significa que não estejam percebendo. Em famílias menos sutis, em que a palavra é aberta e impulsiva, anos se passam enquadrando as crianças em rótulos que muitas vezes duram uma vida inteira. “Esse menino é muito levado!” “Pode falar qualquer coisa na frente dele que ele é distraído...” “Fulano está com notas ruins...pudera, não gosta de estudar!”

Tudo vai bem até que a criança aparece com um comportamento “inadequado”, o que chamamos em Psicologia como “sintoma”. Os pais não fazem idéia do motivo, e muitas vezes sentem-se perdidos:“Preciso descobrir o que há de errado com o meu filho”.

Profissionais de saúde mais atentos devem receber a queixa, mas nunca deixar de pesquisar a família, sobretudo o casal parental. E, ao verificarem um aspecto psicológico importante, encaminhá-los a um profissional psicólogo. Eu acredito no trabalho da Psicanálise, na possibilidade de abordagem do Inconsciente.

O sintoma de uma criança pode ser útil, pois é o sinal necessário para perceber que algo da relação com os pais precisa ser mudado. Em muitos momentos, o socorro que estão pedindo está mais ligado à sua própria conduta, e quando não é um pedido claro, não se pode desperdiçar uma oportunidade dessas de funcionar como um espelho para eles. Por isso é tão importante acolhê-los, para que possam se perguntar como estão exercendo seu papel de pais.O sintoma que incide no comportamento da criança tem sua serventia, desde que tais questões não fiquem reduzidas a tratamentos puramente medicamentosos ou que sequer cogitem o acolhimento e orientação aos pais.

Dia desses recebi uma mãe que fez o seguinte comentário: “ Fui à pracinha com meu filho e pela primeira vez não fiquei falando o tempo todo o que ele devia e o que não devia fazer. Parei para me perceber, e o quanto minha atitude contribui para a ansiedade e impaciência dele.”

Um pai ou mãe que tenha a sensibilidade de se ver enquanto cuidador pode observar que a resistência em olhar para as próprias atitudes pode ser o núcleo do problema.

sábado, 16 de março de 2013

Doença não dá em poste.


Ouvi essa frase em 1999 quando estagiava no setor de Psicologia médica do Hospital do Fundão (UFRJ), de um paciente idoso e extremamente mal humorado. Sozinho, tinha sido encaminhado para atendimento e lá fui eu com o supervisor para atendê-lo.
Distímico, (Distimia é um distúrbio psiquiátrico caracterizado pela falta de prazer na vida e constante sentimento de negatividade), trocou apenas algumas palavras, e ao ser peguntado sobre o que o havia levado ao hospital, respondeu: “Doença não dá em poste”. E só.
Atualmente trabalhando num hospital público no estado do RJ, me deparo com os mais variados tipos de pessoas e situações. O estágio no hospital universitário era só o começo.
Já ouvi muitas histórias e outras presenciei, e pretendo escrever sobre elas por aqui.
Mas da tal da frase lá em cima, eu me lembrei essa semana, quando estava diante de um casal de meia idade, ele internado, ela acompanhando. Ela não saía do lado do leito, a não ser pra fazer suas refeições. Ele dizia que está melhorando. Ela, um tanto mais contrariada, contou que ele “está pra fazer uma biópsia”. Falou na frente dele mesmo, porque disse que “não tem problema”, o que o deixa triste não é sua doença, mas o fato de estar longe do neto, de 8 anos, que nasceu com paralisia cerebral.
Pausa pra ver as fotos. Procurando a foto do menino ela achou de todo o resto da família e me mostrou. Simpática, alegre, com aquele riso que não combina com doença. Feliz. (E vai dizer que não...)
Essa família humilde criou os três filhos e agora cria os netos, sendo que um é especial.
Reparem que não disse deficiente, mas especial, e como não me referir assim a uma criança que é tão importante e vitoriosa, a ponto de manter acesa a chama da vida para alguém que só faz cuidar de sua doença ultimamente?
Doença não dá em poste...
Mas em quem vive.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Sociedade surda?


Para aqueles que conhecem pessoas surdas, é comum ouvir a expressão “comunidade surda”, referindo-se ao grupo social ao qual pertencem os indivíduos com perda auditiva ou surdez profunda, que se identificam, estabelecendo uma rotina de convivência a partir desta condição.
Mas fico me perguntando se os verdadeiros surdos não somos nós, que não ouvimos os apelos pela dignidade, respeito e assistência às suas necessidades, que são, de fato, especiais.
Tal reflexão surgiu a partir do telefonema de uma amiga também psicóloga, que recebeu na rede pública um paciente surdo que necessitava de assistência psicológica urgente. Sem domínio da escrita e da fala, utiliza unicamente a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) para se comunicar.
Me intrigou saber que eu simplesmente não conheço nenhum órgão público no RJ que disponha de um psicólogo clínico que atenda em LIBRAS.
Não adiantava encaminhá-lo pra mim, eu não trabalho na rede pública. E talvez isso resolvesse o problema deste paciente, mas e os outros?
Telefonei para uma instiuição importante na área e a resposta foi bem sincera: “Olha, eu não tenho para onde encaminhar essa pessoa para atendimento”.
Será que é tão difícil imaginar que uma pessoa surda possa precisar de assistência médica, odontológica, psicológica, entre outras necessidades às quais têm direito?
“Ah, mas existem os intérpretes de LIBRAS, que podem mediar a comunicação com os profissionais”, alguém diria.
Ok, mas quem gostaria de ser atendido por um psicólogo, tendo a conversação mediada por uma outra pessoa, com a qual não tem a menor intimidade. Ou mesmo que tivesse, seria digno?
Não precisamos ir muito longe para pensar essa questão, é só verificar entre os estabelecimentos que frequentamos no dia a dia, se os profissionais têm noções básicas de LIBRAS.
Em serviços de ermergência, se a pessoa não souber o Português falado ou escrito, mas tiver aprendido LIBRAS, como irá relatar o que está sentindo naquele exato momento?
Gosto de pensar que a nossa sociedade está em evolução e que daqui a algum tempo não precisaremos nos deparar com tamanha falta de humanidade.
Quanto ao paciente em questão, respondi à amiga psicóloga que, enquanto parte desta sociedade que não lhe escuta, temos muito o que mudar. Não tinha uma opção digna e plausível para sugerir.  

domingo, 3 de março de 2013

Sejam bem-vindos!! O blog já existia, mas estava (coitado) meio deixado de lado. Ele nasceu de um desejo antigo de compartilhar algumas experiências vividas na minha prática clínica. Eu trabalho com a palavra, e é ela que me conduz ao universo do interior de cada sujeito, desde crianças em tenra idade até idosos.
Procurarei sempre proteger a identidade dos sujeitos, bem como aspectos que poderiam torná-la dedutível.
C'mon!